
Recentemente li um livro chamado "O mundo pós-aniversário" no qual a autora Lionel Shriver retrata a história de Irina, uma mulher com um casamento sólido de dez anos, que um dia sente um incontrolável desejo de beijar outro homem.Pra complicar, esse homem é um amigo do casal. A partir daí, a autora divide o livro em duas histórias paralelas: a vida de Irina caso consumasse seu impulso erótico e a vida de Irina caso reprimisse seu desejo.
A autora poderia ter se contentado em escrever sobre o poder transformador de um primeiro beijo em alguém, mas foi inteligente e abordou também o poder transformador de mantermos tudo como está.É comum pensarmos que, ao ficarmos parados no mesmo lugar, sem agir, sem mudar nada, estamos assegurando um destino tranquilo(ou não).Estagnados na mesma situação, é como se estivéssemos protegidos de qualquer e possível fato que nos inquiete.Shhhh.Quietos.Ninguém se mexe para não acordar o diferente.
Não deixa de ser uma estratégia, mas falta combinar com o resto do mundo.As pessoas que nos cercam sempre vão interferir no nosso destino.Se mudarmos bruscamente ou permanecermos na rotina, tanto faz: o mundo se encarregará de trocar as peças de lugar nesse imenso tabuleiro chamado dia a dia.
Ao fazer algo que a sociedade não aprova (como ser casada e dar um beijo em outro homem, a exemplo do livro), tudo poderá acontecer - inclusive nada.Você poderá se apaixonar, abandonar seu marido e viver uma tórrida história de amor, e essa história de amor se revelar uma furada e você se arrepender, e tentar reatar com seu marido, que a essa altura já estará apaixonado pela vizinha.Ou você beijará e, em vez de iniciar um belo romance, voltará para casa bocejando e nada, nadinha será alterado.Foi só uma pequena estupidez momentânea e sem consequências.Mas das consequências de continuar vivo você não escapa.
Seja qual for o caminho que optarmos seguir, haverá altos e baixos.E isso é tudo.Se reavaliarmos alguns momentos de nossas vidas, em algum momento questionaremos:
-E se eu tivesse feito diferente?
O diferente teria sido melhor e teria sido pior.Então o jeito é curtir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajetória, alegrar-se e sofrer, acreditar e descrer, que lá adiante, tudo se justificará, tudo dará certo.Algumas vidas podem até ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais amplo, não existe vida errada.
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